Estudo Bíblico

O que deve fazer um pregador da palavra?

O que deve fazer um pregador da palavra?

  • Éder de Souza
  • Tempo de Leitura 6 Minutos

O que prega a maldade cai no mal, mas o embaixador fiel é saúde.” (Provérbios 13:17).

Este versículo traz melhor compreensão pela tradução da Bíblia King James (BKJ), a qual verteu a palavra maldade (hebr. “rasha”) com o significado de perverso – “Um mensageiro perverso cai na injúria, mas um embaixador fiel é saúde.”. Perverso no sentido do texto hebraico é aquela pessoa hostil a Deus, culpado de pecado contra Deus ou o homem infiel, e assim o entendimento desse texto bíblico ficou mais consentâneo com o desvio intencional e desonesto na pregação da palavra de Deus, pois o assunto tratado nesse conselho bíblico diz respeito aos pregadores infiéis. O termo mal (hebr. “ra”) refere-se à desgraça pessoal, calamidade, adversidade ou miséria de caráter ético, que vem sobre aqueles que perdem a comunhão com Deus*.

Aqui o ensino central associa a ausência de cura espiritual e de saúde física das pessoas com a infidelidade dos pregadores que lhes ministram a palavra de Deus.

No velho testamento essa função de anunciar uma mensagem, proclamar uma notícia oficialmente, cumprindo ordem de Deus, profeta, rei ou outra autoridade, cabia ao arauto (hebr. “karowz”), conforme havia no reino de Nabucodonosor (Daniel 3:4). A mesma função era exercida no meio da nação de Israel pelos profetas levantados pelo Senhor Deus para anunciar suas mensagens de correções e chamados à vida santa aos que se desviavam da obediência à lei.

Por sua vez, no novo testamento a palavra pregador (greg. “kerysso”) vem da palavra grega “kerux” que significa proclamador, arauto, função da pessoa que se colocava à frente do exército para lhe transmitir a ordem do general comandante,  ou de quem intimava ou falava em nome dos reis, magistrados ou outras autoridades (I Tm 2:7, II Tm 1:11 e II Pd 2:5)*.

Assim como o arauto do velho testamento, o pregador oficial (greg. “kerux”) que falava em público em nome de autoridades gregas (magistrados, reis, príncipes, comandantes militares) também tinha o dever de ser um fiel mensageiro. Por exemplo, o “kerux” tinha que transmitir aos soldados somente as ordens do general comandante, sem aumentar nem diminui-las, quando se posicionava à frente do exército. Para manter íntegra a mensagem do comandante militar que o designou e os objetivos da batalha contra o inimigo, o mensageiro jamais deveria falar algo da sua vontade pessoal, sob pena de ser punido por violar a integridade da mensagem.

Em paralelo, os pregadores cristãos não devem falar nem mais nem menos do que está escrito nas sagradas Escrituras (Deuteronômio 4:2, Ap 22:18-19), mas devem falar preocupados em entregar aos ouvintes o alimento espiritual que eles precisam para a salvação da alma e uma vida próspera ainda nesta terra (Isaías 1:19), na porção certa e adequada, abstendo-se de misturar a verdade da Bíblia com doutrinas de sabedoria ou práticas do mundo. Técnicas de autoajuda e de Psicologia, palavras positivas, palestras motivacionais ou as abordagens da mente positiva não podem substituir o lugar da palavra de Deus e nem devem ser mencionadas no altar do Senhor. A proclamação da palavra deve obedecer a instrução deixada pelo Senhor, não o método pessoal do pregador por mais inovador que pareça, principalmente porque o pregador continua sendo servo como os demais irmãos, sujeito a repreensões e punições (Hebreus 13:17) em caso de mal procedimento – o mal proceder por quem ministra no púlpito atrai sobre ele um castigo especial chamado retaliação do altar, diretamente relacionado com a falta de santidade de quem sobe no altar para ministrar à igreja.

A Bíblia não carece de inovação ou atualização, é desnecessário inventar “histórias” novas, tendo em conta que a ordem divina apregoa como suficiente à semeadura ensinar a presente e às futuras gerações os mesmos testemunhos registrados nas Escrituras que vem sendo ensinado há várias gerações. É neles que está o poder de Deus para converter, libertar, curar e salvar a alma dos homens.

A expectativa dos ouvintes e o que a igreja espera ouvir do pastor, padre, profeta, missionário ou outro ministro é a pregação da palavra de Deus, visto que para isso saíram de suas casas. Pelo método bíblico, todo pregador recebeu um chamado, foi capacitado e colocado no púlpito como sacerdote do povo. A função deles é alimentar a igreja com a palavra de Deus – Porque os lábios do sacerdote devem guardar o conhecimento, e da sua boca devem os homens buscar a lei porque ele é o mensageiro do Senhor dos Exércitos.” (Malaquias 2:7). O tempo disponibilizado para se pregar a palavra de Deus não deve ser diminuído com assuntos pessoais, seculares ou entretenimentos, pois altar é lugar de reverência, santo temor e a principal fonte de alimento espiritual, que é a viva e poderosa palavra de Deus.

Tem pregador despreparado no altar? Tem. Sabe-se que nestes últimos anos, cerca de 40% (quarenta por cento) dos pastores que abandonaram a função pastoral nas quatro maiores denominações evangélicas dos EUA, a deixaram porque não tinham o chamado pastoral. Eles se esgotaram mental e fisicamente enfrentando forças espirituais contrárias porque não tinham revestimento de poder. Demônios não devem ser enfrentados com palavras persuasivas nem com força física. Isso também ocorre em nosso país, sobretudo porque o púlpito tornou-se atraente e sinônimo de poder religioso, onde se vê pastores que sequer cuidam das ovelhas, em total descaso com a necessária diligência que deveriam ter com as almas que lhes foram entregues – “Procura conhecer o estado das tuas ovelhas; põe o teu coração sobre os teus rebanhos” (Pv 27:23).

O pregador que fala fielmente a palavra da verdade demonstra zelo com a paz e a salvação das almas e causa um duplo efeito: refrigera as almas ansiosas e agrada a Deus. É o que ensina a sabedoria da palavra: “Como o frescor de neve no tempo da ceifa, assim é o mensageiro fiel para com os que o enviam, porque refrigera a alma dos seus senhores.” (Provérbios 25:13 – ARA). Logo, anunciar, ensinar e pregar publicamente a verdade divina revelada nas Escrituras impõe ao pregador maior senso de responsabilidade, consagração, temor e santidade para cumprir sua função diante de Deus.

Todos devemos se guiar pelas instruções, preceitos e mandamentos da palavra. No entanto, quanto a isso o pregador tem maior compromisso de conhecer a palavra da verdade devido sua condição de semeador, pastor e aconselhador de almas. Por exemplo, a vontade de Deus é que todo servo ou liderança espiritual somente aconselhem a igreja ou ouvintes fazendo uso da palavra de Deus, pois há nela poder suficiente para resolução de qualquer problema – Porventura não te escrevi excelentes coisas, acerca de todo conselho e conhecimento, Para fazer-te saber a certeza das palavras da verdade, e assim possas responder palavras de verdade aos que te consultarem?” (Provérbios 22:20). Quem ainda não age desta maneira nos aconselhamentos pastorais ou espirituais precisa revestir-se da armadura de Deus (Efésios 6:13) e dotar-se das armas da luz (Romanos 13:12), revestimentos que se incorpora a todos que conhecem a palavra de Deus e discernem todas as coisas espiritualmente.

Não devemos ser ingênuos, eis aqui a razão pela qual há tantos ministérios secos e infrutíferos espiritualmente, embora até possam ser igrejas instaladas em boas estruturas físicas, com muitos membros e dirigentes afamados no meio evangélico, todavia isso não tem valor espiritual. São palavras persuasivas de sabedoria que os sustentam, não o verdadeiro poder e a pureza da palavra de Deus operada por meio do Espírito Santo - E a minha palavra, e a minha pregação, não consistiram em palavras persuasivas de sabedoria humana, mas em demonstração do Espírito e de poder;” (I Co 2:4).

Por que está cada vez mais raro ver conversões sinceras, libertações definitivas das garras do diabo, curas de doenças e milagres? O texto-base diz claramente que se o pregador for infiel ao proclamar a palavra de Deus não haverá cura de enfermidades espirituais nem saúde para os ouvintes. A sabedoria também diz que se guardamos a palavra de Deus no coração ela é “vida para os que as acham, e saúde para todo o seu corpo.” (Provérbios 4:22), bem como é dito que a fé se fortalece e opera no sobrenatural pelas palavras de Jesus Cristo, em nome de quem temos a bênção da saúde perfeita (Atos 3:16). Ora, se a palavra de Deus não volta vazia – “Assim será a minha palavra, que sair da minha boca; ela não voltará para mim vazia, antes fará o que me apraz, e prosperará naquilo para que a enviei.” (Isaías 55:11) -, por que esta esterilidade espiritual que reina nas igrejas? A resposta não é difícil. É porque só um pregador fiel, comprometido com a santidade e obediência a Deus, possui unção do Espírito Santo para abençoar com saúde espiritual e física seus ouvintes, em nome do Senhor Jesus Cristo.

O pecado é a maior e a mais grave enfermidade espiritual que os homens precisam curar. O evangelho de Cristo é o remédio que precisa ser tomado por todos os homens que querem se curar do mal do pecado para não morrerem eternamente. E, para isso, o evangelho deve ser pregado incessantemente. Sem pregação ou ensino da palavra a fé se torna frágil, pois a fé surge e cresce naqueles que ouvem a palavra de Deus (Rm 10:17).

Todavia, se houver estagnação na fé a vida espiritual dos membros da igreja corre perigo de ceder as tentações malignas ou às concupiscências da velha natureza, por falta de edificação espiritual e santificação, pois é a palavra que santifica o coração humano (João 17:17). O homem precisa ser edificado pela palavra de Deus, pois nela estão anunciadas e testificadas as obras e as promessas de Deus para todos que nele confiam - “Em ti, pois, confiam os que conhecem o teu nome, porque tu, Senhor, não desamparas os que te buscam.” (Salmos 9:10 - ARA). Se o homem andar conforme a palavra de Deus será transformado por dentro e por fora, porquanto não mais irá mentir, adulterar, roubar, cobiçar o que é alheio e muitas outras coisas serão consertadas na sua vida.

A fraqueza da fé ou a fé fingida favorece a prática de transgressões e pecados por aqueles que estão dentro das igrejas e está diretamente ligada à falta de edificação espiritual. Iniquidade é o nome que se dá ao pecado cometido por membros de igreja, os quais, mesmo na prática habitual de pecado escondido continuam frequentando e até ministrando no altar como se fossem santos. Pessoas que frequentam a igreja há vários anos, porém não tem mudança de vida nem crescimento espiritual, normalmente são iníquas, pois, se Deus é imutável (Malaquias 2:6) e o poder da sua palavra permanece até que se passem os céus e a terra (Mateus 5:18), o problema está no coração do homem que o busca sem fé e com insinceridade de coração.

Ministros da palavra que não se preocupam em pregar contra o pecado da cobiça ou ganância, do adultério, da fornicação, da idolatria, da mentira, da embriaguez, da perversão sexual, da pornografia ou das vestes indecorosas com a santidade que deve ter o povo de Deus, preferindo selecionar temas que fazem coceiras nos ouvidos, que aguçam o desejo da prosperidade material e financeira, mesmo sabendo que o valor da alma é impagável por dinheiro algum (Marcos 8:36), ou evitam pregar repreensões necessárias a ouvintes pecadores, são pregadores infiéis, dos quais não se pode esperar cura nem saúde espiritual e física.

Um pregador fiel só descansa sua alma quando se empenhou com esforço em fazer a vontade do Senhor, principalmente pregando todos os conselhos de Deus – “Portanto, no dia de hoje, vos protesto que estou limpo do sangue de todos. Porque nunca deixei de vos anunciar todo o conselho de Deus.” (At 20:26-27). Pregar todo conselho de Deus não tem nada a ver com estudar ou diplomar-se em curso de Teologia, tão em voga nestes tempos, mas em conhecer toda a palavra de Deus revelada, “porque Deus é o que opera em vós tanto o querer como o efetuar, segundo a sua boa vontade.” (Filipenses 2:13).

Oremos a Deus para que nossos pregadores sejam fiéis no compromisso de ensinar e pregar a palavra da verdade, e estejamos livres das palavras enganosas e lisonjeiras de pregadores infiéis ou falsos pastores.

* Dicionário Strong

**© Texto bíblico: ACF – SBTB