O que deve fazer um pregador da palavra?
“O que prega a maldade cai no mal,
mas o embaixador fiel é saúde.” (Provérbios 13:17).
Este versículo traz melhor compreensão pela tradução da Bíblia King
James (BKJ), a qual verteu a palavra maldade (hebr. “rasha”) com o significado de perverso – “Um mensageiro perverso cai na injúria, mas
um embaixador fiel é saúde.”. Perverso no sentido do texto hebraico é
aquela pessoa hostil a Deus, culpado de pecado contra Deus ou o homem infiel, e
assim o entendimento desse texto bíblico ficou mais consentâneo com o desvio intencional e desonesto
na pregação da palavra de Deus, pois o assunto tratado nesse conselho bíblico
diz respeito aos pregadores infiéis. O termo mal (hebr. “ra”) refere-se à desgraça pessoal, calamidade, adversidade ou
miséria de caráter ético, que vem sobre aqueles que perdem a comunhão com Deus*.
Aqui o ensino central associa a ausência de cura espiritual e de saúde física
das pessoas com a infidelidade dos pregadores que lhes ministram a palavra de
Deus.
No velho testamento essa função
de anunciar uma mensagem, proclamar uma notícia oficialmente, cumprindo ordem
de Deus, profeta, rei ou outra autoridade, cabia ao arauto (hebr. “karowz”), conforme havia no reino de
Nabucodonosor (Daniel 3:4). A mesma função era exercida no meio da nação de Israel
pelos profetas levantados pelo Senhor Deus para anunciar suas mensagens de
correções e chamados à vida santa aos que se desviavam da obediência à lei.
Por sua vez, no novo testamento
a palavra pregador (greg. “kerysso”) vem da palavra grega “kerux”
que significa proclamador, arauto, função da pessoa que se colocava à frente do
exército para lhe transmitir a ordem do general comandante, ou de quem
intimava ou falava em nome dos reis,
magistrados ou outras autoridades (I Tm 2:7, II Tm 1:11 e II Pd 2:5)*.
Assim como o arauto do velho testamento, o
pregador oficial (greg. “kerux”) que falava em público em nome de autoridades
gregas (magistrados, reis, príncipes, comandantes militares) também tinha o
dever de ser um fiel mensageiro. Por exemplo, o “kerux” tinha que transmitir aos soldados somente as ordens do
general comandante, sem aumentar nem diminui-las, quando se posicionava à
frente do exército. Para manter íntegra a mensagem do comandante militar que o
designou e os objetivos da batalha contra o inimigo, o mensageiro jamais
deveria falar algo da sua vontade pessoal, sob pena de ser punido por violar a
integridade da mensagem.
Em paralelo, os pregadores cristãos não devem falar
nem mais nem menos do que está escrito nas sagradas Escrituras (Deuteronômio 4:2, Ap
22:18-19), mas devem falar preocupados em entregar aos ouvintes o alimento
espiritual que eles precisam para a salvação da alma e uma vida próspera ainda
nesta terra (Isaías 1:19), na porção certa e adequada, abstendo-se de misturar a
verdade da Bíblia com doutrinas de sabedoria ou práticas do mundo. Técnicas de
autoajuda e de Psicologia, palavras positivas, palestras motivacionais ou as
abordagens da mente positiva não podem substituir o lugar da palavra de Deus e
nem devem ser mencionadas no altar do Senhor. A proclamação da palavra deve
obedecer a instrução deixada pelo Senhor, não o método pessoal do pregador por
mais inovador que pareça, principalmente porque o pregador continua sendo servo
como os demais irmãos, sujeito a repreensões e punições (Hebreus 13:17) em caso de
mal procedimento – o mal proceder por quem ministra no púlpito atrai sobre ele um
castigo especial chamado retaliação do altar, diretamente relacionado com a
falta de santidade de quem sobe no altar para ministrar à igreja.
A Bíblia não carece de inovação ou atualização,
é desnecessário inventar “histórias” novas, tendo em conta que a ordem divina apregoa
como suficiente à semeadura ensinar a presente e às futuras gerações os mesmos
testemunhos registrados nas Escrituras que vem sendo ensinado há várias
gerações. É neles que está o poder de Deus para converter, libertar, curar e
salvar a alma dos homens.
A expectativa dos
ouvintes e o que a igreja espera ouvir do pastor, padre, profeta, missionário
ou outro ministro é a pregação da palavra de Deus, visto que para isso saíram
de suas casas. Pelo método bíblico, todo pregador recebeu um chamado, foi capacitado
e colocado no púlpito como sacerdote do povo. A função deles é alimentar a
igreja com a palavra de Deus – “Porque
os lábios do sacerdote devem guardar o conhecimento, e da sua boca devem os homens
buscar a lei porque ele é o mensageiro do Senhor dos Exércitos.” (Malaquias 2:7).
O tempo disponibilizado para se pregar a palavra de Deus não deve ser diminuído
com assuntos pessoais, seculares ou entretenimentos, pois altar é lugar de
reverência, santo temor e a principal fonte de alimento espiritual, que é a
viva e poderosa palavra de Deus.
Tem pregador
despreparado no altar? Tem. Sabe-se que nestes últimos anos, cerca de 40%
(quarenta por cento) dos pastores que abandonaram a função pastoral nas quatro
maiores denominações evangélicas dos EUA, a deixaram porque não tinham o
chamado pastoral. Eles se esgotaram mental e fisicamente enfrentando forças
espirituais contrárias porque não tinham revestimento de poder. Demônios não
devem ser enfrentados com palavras persuasivas nem com força física. Isso
também ocorre em nosso país, sobretudo porque o púlpito tornou-se atraente e
sinônimo de poder religioso, onde se vê pastores que sequer cuidam das ovelhas,
em total descaso com a necessária diligência que deveriam ter com as almas que
lhes foram entregues – “Procura conhecer
o estado das tuas ovelhas; põe o teu coração sobre os teus rebanhos” (Pv
27:23).
O pregador que fala fielmente a palavra da verdade demonstra zelo com a paz e a salvação das almas e causa um duplo efeito: refrigera as almas ansiosas e agrada a Deus. É o que ensina a sabedoria da palavra: “Como o frescor de neve no tempo da ceifa, assim é o mensageiro fiel para com os que o enviam, porque refrigera a alma dos seus senhores.” (Provérbios 25:13 – ARA). Logo, anunciar, ensinar e pregar publicamente a verdade divina revelada nas Escrituras impõe ao pregador maior senso de responsabilidade, consagração, temor e santidade para cumprir sua função diante de Deus.
Todos devemos se
guiar pelas instruções, preceitos e mandamentos da palavra. No entanto, quanto
a isso o pregador tem maior compromisso de conhecer a palavra da verdade devido
sua condição de semeador, pastor e aconselhador de almas. Por exemplo, a
vontade de Deus é que todo servo ou liderança espiritual somente aconselhem a
igreja ou ouvintes fazendo uso da palavra de Deus, pois há nela poder
suficiente para resolução de qualquer problema – “Porventura não te escrevi excelentes coisas, acerca de todo conselho e
conhecimento, Para fazer-te saber a certeza das palavras da verdade, e assim
possas responder palavras de verdade aos que te consultarem?” (Provérbios 22:20).
Quem ainda não age desta maneira nos aconselhamentos pastorais ou espirituais
precisa revestir-se da armadura de Deus (Efésios 6:13) e dotar-se das armas da luz
(Romanos 13:12), revestimentos que se incorpora a todos que conhecem a palavra de
Deus e discernem todas as coisas espiritualmente.
Não
devemos ser ingênuos, eis aqui a razão pela qual há tantos ministérios secos e
infrutíferos espiritualmente, embora até possam ser igrejas instaladas em boas
estruturas físicas, com muitos membros e dirigentes afamados no meio
evangélico, todavia isso não tem valor espiritual. São palavras persuasivas de
sabedoria que os sustentam, não o verdadeiro poder e a pureza da palavra de
Deus operada por meio do Espírito Santo - “E a minha palavra, e a minha pregação, não consistiram em palavras
persuasivas de sabedoria humana, mas em demonstração do Espírito e de poder;”
(I Co 2:4).
Por que está cada vez
mais raro ver conversões sinceras, libertações definitivas das garras do diabo,
curas de doenças e milagres? O texto-base diz claramente que se o pregador for
infiel ao proclamar a palavra de Deus não haverá cura de enfermidades espirituais
nem saúde para os ouvintes. A sabedoria também diz que se guardamos a palavra
de Deus no coração ela é “vida para os
que as acham, e saúde para todo o seu corpo.” (Provérbios 4:22), bem como é dito
que a fé se fortalece e opera no sobrenatural pelas palavras de Jesus Cristo,
em nome de quem temos a bênção da saúde perfeita (Atos 3:16). Ora, se a palavra
de Deus não volta vazia – “Assim será a
minha palavra, que sair da minha boca; ela não voltará para mim vazia, antes
fará o que me apraz, e prosperará naquilo para que a enviei.” (Isaías 55:11) -,
por que esta esterilidade espiritual que reina nas igrejas? A resposta não é
difícil. É porque só um pregador fiel, comprometido com a santidade e
obediência a Deus, possui unção do Espírito Santo para abençoar com saúde
espiritual e física seus ouvintes, em nome do Senhor Jesus Cristo.
O pecado é a maior e a
mais grave enfermidade espiritual que os homens precisam curar. O evangelho de
Cristo é o remédio que precisa ser tomado por todos os homens que querem se
curar do mal do pecado para não morrerem eternamente. E, para isso, o evangelho
deve ser pregado incessantemente. Sem pregação ou ensino da palavra a fé se
torna frágil, pois a fé surge e cresce naqueles que ouvem a palavra de Deus (Rm
10:17).
Todavia, se houver
estagnação na fé a vida espiritual dos membros da igreja corre perigo de ceder
as tentações malignas ou às concupiscências da velha natureza, por falta de
edificação espiritual e santificação, pois é a palavra que santifica o coração
humano (João 17:17). O homem precisa ser edificado pela palavra de Deus, pois
nela estão anunciadas e testificadas as obras e as promessas de Deus para todos
que nele confiam - “Em ti, pois, confiam
os que conhecem o teu nome, porque tu, Senhor, não desamparas os que te buscam.”
(Salmos 9:10 - ARA). Se o homem andar conforme a palavra de Deus será transformado
por dentro e por fora, porquanto não mais irá mentir, adulterar, roubar, cobiçar
o que é alheio e muitas outras coisas serão consertadas na sua vida.
A fraqueza da fé ou a
fé fingida favorece a prática de transgressões e pecados por aqueles que estão
dentro das igrejas e está diretamente ligada à falta de edificação espiritual.
Iniquidade é o nome que se dá ao pecado cometido por membros de igreja, os quais,
mesmo na prática habitual de pecado escondido continuam frequentando e até
ministrando no altar como se fossem santos. Pessoas que frequentam a igreja há
vários anos, porém não tem mudança de vida nem crescimento espiritual,
normalmente são iníquas, pois, se Deus é imutável (Malaquias 2:6) e o poder da sua
palavra permanece até que se passem os céus e a terra (Mateus 5:18), o problema
está no coração do homem que o busca sem fé e com insinceridade de coração.
Ministros da palavra
que não se preocupam em pregar contra o pecado da cobiça ou ganância, do
adultério, da fornicação, da idolatria, da mentira, da embriaguez, da perversão
sexual, da pornografia ou das vestes indecorosas com a santidade que deve ter o
povo de Deus, preferindo selecionar temas que fazem coceiras nos ouvidos, que
aguçam o desejo da prosperidade material e financeira, mesmo sabendo que o
valor da alma é impagável por dinheiro algum (Marcos 8:36), ou evitam pregar
repreensões necessárias a ouvintes pecadores, são pregadores infiéis, dos quais
não se pode esperar cura nem saúde espiritual e física.
Um pregador fiel só
descansa sua alma quando se empenhou com esforço em fazer a vontade do Senhor,
principalmente pregando todos os conselhos de Deus – “Portanto, no dia de hoje, vos protesto que estou limpo do sangue de
todos. Porque nunca deixei de vos anunciar todo o conselho de Deus.” (At
20:26-27). Pregar todo conselho de Deus não tem nada a ver com estudar ou
diplomar-se em curso de Teologia, tão em voga nestes tempos, mas em conhecer
toda a palavra de Deus revelada, “porque
Deus é o que opera em vós tanto o querer como o efetuar, segundo a sua boa
vontade.” (Filipenses 2:13).
Oremos a Deus para que
nossos pregadores sejam fiéis no compromisso de ensinar e pregar a palavra da
verdade, e estejamos livres das palavras enganosas e lisonjeiras de pregadores
infiéis ou falsos pastores.
* Dicionário
Strong